Ecos de um coração 'Por Marcela Rocha

Meio gole seco, na realidade fora mais um sistemático gesto irrefletido, quase robotizado, tanto quanto contar os pisos de madeira do assoalho.
Arfou duas ou três vezes, como se alguém fosse notar sua iminente impaciência...
Um gesto em vão.
Como quase tudo em sua vida.
Em vão, um grande vão, todos vão um dia.
Ela sorriu, contemplou a parede de lambris largos e cinzentos, o teto altivo compadecia perante a fria razoabilidade a qual aquele majestoso cômodo fora erguido.
Um quarto frio, perfeitamente compatível aos seus inquilinos.
Supostos inquilinos, presumo.
Não, eram sim, na verdade muitos os moradores daquele lugar.
Ela e suas dúzias de sombras, sua cavalaria, seus medos e todas as outras faces que ela escondia do mundo, ela e toda a sua solidão.
A janela grasnia ruidosamente, produzindo aqueles horrendos cliques e claques.
Uma brisa fria e cortante. Malhas de arrepios lhe brotaram ao peito.
Aqueles sons, ribombeavam. Conscientemente ela os deixava permanecer, aqueles. Os gritos abafados em seu coração.
Um pequeno espaço esguio, cuidadosamente talhado de irrevogável bom gosto. Sobre ele, uma ou duas cadeiras empoeiradas, uma criança escondida em algum lugar e resquícios, muitos resquícios das sobras de seus antigos moradores.
Alguns anelzinhos de fumaça começavam a se infiltrar pelas rachaduras dos cantos da parede.
Ela... ?
Ela permanece imóvel.
Cerrou os olhos, "seu coração ainda pulsava", observou contrafeita. Seu olhar pousou em um amontoado canto escuro no chão.
Não!
Ela não olharia de novo. Ela não sofreria novamente observando os restos intragáveis de todos que ela deixara um dia, se instalar ali.
Levantou-se, detendo-se ao reflexo no espelho.
"oi, você"
"oi" respondeu o reflexo .
"por que insiste em ficar aqui, quando todos já se foram?"
"fico, porque você está."
Um gesto impotente de indiferença
"Como quiser sua tola"
Seus olhos contornados de vermelho, seu reflexo contra consecutivo, toda a melancolia daquele lugar imundo. Ela poderia partir, sair dali para sempre, partir tanto quanto as paredes estavam fazendo.
Ela insistia, voltava á mesma cadeira velha e castigada, mantendo seus rígidos movimentos. Observava.
E mais uma vez, curva-se para limpar os pavorosos estragos da ultima visita.
Era sempre assim.
Ignorava os avisos, escondia-se das sombras e comovia-se sempre. Em sua vaga experiência as lágrimas já eram suas acariciantes companheiras.
Juntava toda a tristeza e tomava mais um gole quente de frustração.
E lá ia ela, mais uma vez.
Limpar os pavorosos estragos da ultima visita em seu coração.

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