O dono do mundo 'Por Marcela Rocha



Muito se dizia sobre ele .
O homem que havia decepcionado a todos.
Certa vez, esse sentiu-se no livre direito de revidar a essa contrafação.
Enquanto se embriagava, arrumando o colarinho de sua camisa importada de linho fino, levava a mão desocupada ao flanco.Observando com frenesi a noite caprichosa, porém garrida, ostentando seu ares de branda arrogância.
Suspirou, deixando-se recostar em sua poltrona mais confortável, os olhos semicerrados, os lábios entrecortados, era um eterno freguês do meio termo.
Largou o copo á mesa. O copo meio cheio, ou meio vazio -é um mistério.
Arfou mais uma vez.
Praguejou duas ou três pelo bulício das vozes noturnas, amaldiçoando a bohemia. Era um insulto se fazer feliz,quando não tinham o que ele conquistou.
A tênue iluminação propiciava ares túrbidos á sua tez alva.Arcou as sombrancelhas, formando um vinco em sua testa.
Se pôs elegante, arrumando-se . A noite seria testemunha de tua finura .
Lembrou-se então dos tempos de outrora, em que haviam mais testemunhas do que a noite para teus feitos. Á menção destes devaneios, esvaziou o o copo e finalmente fechou os olhos castanhos altivos meio fechados,meio abertos. Cerrou os lábios entrecortados.
Recordou-se dos tempos em que lhe faltavam d'ornatos, do tempo em que não era tão abastado.
Ah, sua antiga velha gorda, a mãe de seios fartos e mãos castigadas, que alimentava teus miúdos com apenas as regalias das sobras do dia anterior.Estranhamente sorria,naquele tempo que sequer tinha dentes.
Transladou-se ás épocas frias, do tempo que fugira de casa, com a cabeça prenhe de sonhos e os bolsos vazios de prata.
Sequer preocupou-se com as dificuldades, do pão duro, ou da falta dele, ds chinelas velhas, do tempo em que qualquer diversão seria consumida rapidamente pela fome da alma, tão rapidamente sem ao menos ser sentida.
Estava entorpecido, qualquer centavo recompensava a dor.
Pobre homem, tua pressurosidadeo condena-te ás tristesas dos dias fartos.Dos bolsos cheios de prata e a cabeça vazia. No peito apenas um coração automático, batendo compassadamente recorrendo ás interpretações maquinárias deste órgão. Apenas isso, uma máquina em funcionamento.
Os sonhos se esvairam com o tempo.
Mal lembrava de tua pobre mão ou dos outros três irmãos.
Endureceu-te a carcaça, pôs fria a alma, mancomunou teu perdão. Vendeu-te o coração ao demônio da consagração.
Condecorado, condenado, farto,frio,são, sozinho.
Aos poucos o copo caíra de tuas mãos gordas, o corpo por fim reconhecia a mesma frieza de tua alma.